A importância do brincar – e como respeitar o espaço do seu filho

Muitas das descobertas relacionadas aos bebês são bastante recentes. Com isso, pais, cuidadores e profissionais da educação ainda estão em um processo de descobrir qual o ponto certo de se colocar na mediação das atividades realizadas com eles, sem serem omissos nem intrusivos. E os limites são sempre delicados. É comum agir de forma extremamente incisiva e acabar atropelando as necessidades das crianças.

“O indicado é assumir uma posição atenta e reativa na medida em que os bebês vão mostrando as possibilidades das habilidades que têm naquele momento”, diz Tânia Ramos Fortuna, professora de Psicologia da Educação e coordenadora geral do programa de extensão universitária “Quem quer brincar?”, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Tânia lembra ainda do conceito criado pelo psiquiatra inglês Donald Winnicott sobre a “mãe suficientemente boa”, que seria melhor do que a considerada “mãe perfeita”. “A ‘mãe perfeita’ acaba cometendo atropelos. Já a ‘mãe suficientemente boa’ cria para o filho a ilusão de que existe um mundo que corresponde às suas necessidades e, aos poucos, vai desiludindo esse bebê, colocando-o em contato com a realidade propriamente dita. Ela não realiza imediatamente tudo o que aquele bebê exige, mas, sim, dá espaço para que ele seja capaz de desejar e lidar com algumas frustrações. Vale ressaltar que, no caso, a ‘mãe’ representa a figura que cuida, não necessariamente a mãe da criança”, explica.

Ainda de acordo com o psiquiatra inglês, essas experiências de frustrações serão decisivas para toda a vida emocional posterior. Contribuirão para desenvolver a tolerância às decepções que surgirem e também ajudarão a estimular a capacidade desses bebês de se tornarem adultos com constante vontade de aprender, querer mais e ir à luta.

A evolução das brincadeiras do bebê

Ninguém nasce sabendo brincar, essa é uma habilidade assimilada aos poucos. “Até mais ou menos os oito meses, os bebês fazem apenas atividades pré-lúdicas ou exploratórias, como bater, sacudir, levar algo à boca… Mas ainda não podemos chamar de brincadeiras no sentido pleno, com simbolismos ou noção de repetição intencionalmente mantida”, conta a pedagoga.

Ela esclarece que há três tipos básicos de brincar. Existe a brincadeira de exercício, que corresponde a ações como bater, lançar, levar à boca etc. que já envolvam percepção, movimento, repetição e manutenção das atividades de forma intencional. Assim, o bebê começa a se divertir ao colocar um objeto na boca e afastá-lo ou se esconder atrás de algo e tornar a aparecer.

“Esse tipo de brincadeira predomina até cerca de dois anos e diminui de importância gradualmente. Em torno de um ano e meio ou dois anos, o bebê já é capaz de realizar brincadeiras de faz de conta ou jogos simbólicos, nos quais finge que vai dormir, simula dar comida a bonecos, calça os sapatos dos pais… Essas práticas de faz de conta têm seu ápice por volta dos quatro anos. Depois, passam a dar lugar às chamadas brincadeiras de regras. A partir de cinco ou seis anos, as crianças adquirem uma percepção de regra como algo que elas podem sistematizar e isso permite jogos em grupos, jogos de tabuleiro, entre outros”, conta. “Essas faixas etárias são só referências, variam muito de acordo com as culturas e as épocas. E uma fase coexiste com as outras, o que ocorre é uma preponderância de um tipo de brincadeira e identificamos que acontece nessa sequência.”

Assim como as brincadeiras se alteram ao longo da infância, elas não desaparecem na idade adulta. “Os jogos vão mudando de tamanho e o modo de brincar também. Transforma-se na nossa relação com as experiências culturais, como a literatura e a arte, por exemplo. A vontade de aprender, a curiosidade, o humor e a atitude criativa perante a vida vêm da nossa capacidade de brincar”, revela Tânia.

A importância da diversidade

Nessa fase de intensas descobertas que é a primeira infância, é fundamental oferecer diferentes materiais que possam ser explorados, incluindo os mais rústicos e naturais. Ao se limitar a brinquedos feitos com somente um tipo de material, impõe-se um padrão restrito à criança, que vai simplificando e reduzindo a sua capacidade de percepção. A riqueza e diversidade de texturas, formatos e sons promovem o alargamento do campo estético e valiosas experiências de sensações, o que abastece o sistema nervoso do bebê com informações importantes, colaborando para o seu desenvolvimento neurológico e neuropsicológico.

Outro ponto relevante é garantir a qualidade de interação com esses objetos. Dê tempo para que a criança explore as suas impressões ao pegar os brinquedos, pisar sobre a grama, o tapete ou um chão liso e frio. E preste atenção às suas reações enquanto promove essas experiências ao seu filho. Ter uma postura de que muitas coisas são perigosas, sujas e não valem ser tocadas pode acabar refletindo em experiências de privação que vão modelar a curiosidade de mundo dele.

A criança observa os adultos para saber como agir e reproduz o que vê. Ela se desespera ou se acalma quando acontece algo de acordo como age o pai, a mãe ou o cuidador. “Quando se estabelece uma relação de intimidade e de sintonia é para o bem e para o mal. Isso mostra a grande responsabilidade em respeito às crianças, pois elas são muito vulneráveis às nossas atitudes”, alerta Tânia.

Cuidado com os excessos

Em geral, os ambientes em que se vive já são muito estimulantes. A vida urbana é repleta de informações, barulhenta e, dentro de casa, convive-se com a TV, o aparelho de som, os brinquedos sonoros e outros equipamentos. Até mesmo o quarto do bebê pode apresentar excessos na decoração e ser repleto de bichos de pelúcia, enfeites sobre o berço ou com bonecos e almofadas dentro do próprio berço. Às vezes, tudo para ele está tomado por imagens, sem nenhuma parede branca para a qual possa olhar e simplesmente imaginar. “O bebê fica sobrecarregado com elementos com os quais tem dificuldade de interagir e é comum se recolher demais ou ficar totalmente indiferente. Ele precisa de um tempo para se adaptar à quantidade de estímulos e necessita de uma dosagem deles compatível com a sua capacidade de processá-los, interagir e entender do que se trata”, observa Tânia.

O bebê não precisa se manter risonho e feliz o tempo todo, sem períodos de silêncio e introspecção. É um erro oferecer um brinquedo seguido de outro, sem possibilitar um tempo maior para que ele consiga conhecer o que está em suas mãos. Tânia adverte: “Ao fazer isso, a mensagem transmitida é que ele não deve persistir, se concentrar e que nenhuma situação ou objeto merece sua atenção por um longo tempo. O resultado costuma ser uma pessoa sem foco, distraída e hiperativa, com uma conduta impaciente e pouco perseverante”.

Vale controlar um pouco essa oferta frenética de brinquedos diferentes, avaliar como dosar os estímulos propostos aos bebês ou às crianças e também, quando for brincar com eles, fazer isso de um modo verdadeiro. Coloque de lado a tendência de deixá-los vencer sempre as disputas, por exemplo. Isso só reforça o egocentrismo. Proponha brincadeiras em que a sorte incida e permita que os pequenos eventualmente ganhem.

“Por fim, não se deve perder a intuição. Hoje temos muita informação disponível na televisão, na internet ou em outros meios. Às vezes, isso apaga um pouco a capacidade de agir por nós mesmos e prestar atenção ao nosso bebê. Mas ‘receitas’ apresentam um uso limitado e funcionam em uma situação de exceção e controle das variáveis. A vida não é assim. Receba as orientações dadas como dicas e confie na sua capacidade de intuir”, conclui a pedagoga.

Entenda o que são os períodos sensíveis de desenvolvimento e saiba em quais faixas etárias a criança possui uma tendência inata a adquirir determinadas habilidades

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