Como treinar a concentração já nos primeiros anos de vida

A concentração é um processo de conquista e tem um ponto de partida: a curiosidade. Quando a criança se sente atraída por um tema ou um material, ela naturalmente permanece atenta durante algum tempo ao que despertou o seu interesse.  A partir daí, de maneira gradual, alcançará a concentração. O papel da família nesse momento é respeitar o espaço e o tempo da criança e proporcionar um ambiente que favoreça o desenvolvimento dessa habilidade.

“Estímulos em excesso ou brinquedos demais no quarto, por exemplo, atrapalham e a criança pode ficar perdida em meio a tantos objetos”, alerta Sonia Maria Braga, diretora pedagógica da Meimei Escola Montessoriana, do Rio de Janeiro (RJ), e presidente da Organização Montessori do Brasil. O mais aconselhável é restringir a quantidade de brinquedos que a criança encontra à sua disposição, guardando alguns e fazendo um rodízio daqueles que ficam ao alcance dela. “Quando os pequenos têm muitas coisas disponíveis, é provável que não consigam se dedicar a cada objeto nem explorar todas as suas possibilidades”, pondera a educadora.

Algumas atividades simples e bastante cotidianas também podem ajudar. “Experimente propor à criança despejar um líquido com calma, segurando o copo ou uma jarra com cuidado, ou passar grãos de um pote para outro com uma pinça ou uma colher. São tarefas que têm uma conexão direta com a vida real e exigem movimentos cautelosos. Esse tipo de prática pode colaborar com a conquista da concentração”, orienta Sonia. De qualquer maneira, vale ter em mente que nunca se deve comparar uma criança à outra. Cada uma possui um tempo diferente de desenvolvimento e este precisa ser considerado.

O que pode interferir

Locais muito agitados, falta de brinquedos ou itens que a criança demonstre verdadeiro interesse e constantes interrupções podem afetar a construção do poder de concentração. “Muitas vezes as crianças ou os bebês estão entretidos com suas descobertas e um adulto corta aquilo de forma estabanada. Todo o processo mental que estava se consolidando fica comprometido e retomá-lo exige esforços extras. Respeite o que o seu filho faz. Se ele está se dedicando a algo e demonstra prazer, apenas observe. Além disso, ofereça a ele um ambiente tranquilo e harmonioso, no qual se sinta calmo, apoiado e amparado”, explica Sonia.

A exposição à tecnologia também deve ser dosada. “A tecnologia é uma excelente ferramenta, e não podemos impedir que as crianças tenham acesso a ela, desde que sempre com supervisão. E é fundamental dosar esse uso”, diz Sonia. “Há crianças que passam horas em frente à televisão, a um computador, com um celular ou um tablet nas mãos… elas recebem tudo pronto, não promovem as brincadeiras por meio de ações. Isso reflete negativamente na capacidade de atenção e no desenvolvimento cognitivo.”

A concentração trabalhada desde bebê

Antes de qualquer coisa, observe sempre o seu bebê. “Se você apresenta a ele um móbile, que por si já tem algumas imagens, formas e cores, não precisa balançar esse móbile nem oferecer outros brinquedos para que ele segure ao mesmo tempo. Permita que ele se entretenha olhando as figuras e apenas aguarde. O bebê demonstrará quando tiver perdido o interesse naquilo ou caso necessite de alguma interação. Se ele passar a brincar com o próprio pé, deixe-o à vontade. Não é necessário intervir ou começar a dizer os nomes das partes do corpo, por exemplo”, recomenda a educadora. Quando ele já consegue ficar sentado sozinho, dê três ou quatro brinquedos de formas e texturas diferentes para que manipule, leve à boca, aperte… “A criança é capaz de permanecer um determinado período explorando os objetos ou pode ainda colocá-los de lado para se ater ao ambiente. Ela estará estabelecendo o tempo dela e quanto menos interferência do adulto, melhor.”

É importante saber esperar. “Muitas vezes os adultos impõem o seu ritmo à criança, o que causa dificuldades no seu processo de desenvolvimento. A orientação é observar primeiro para depois atuar. Mesmo quando a criança está brincando e busca o adulto com o seu olhar, é preciso interpretar esse olhar. Talvez ela esteja solicitando ajuda ou pode apenas querer aprovação e, para isso, basta um sinal à distância. Observe com atenção e sensibilidade”, conclui Sonia.

Entenda o que são os períodos sensíveis de desenvolvimento e como você pode contribuir para cada um deles

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