Introdução alimentar: o que é importante saber para fazê-la com qualidade e sem ansiedade

Como o próprio termo sugere, a introdução alimentar é uma fase de transição e adaptação, na qual o bebê será exposto a uma série de novidades. A partir do sexto mês, seu filho passará por uma importante mudança de hábitos. Até então, ele mamava praticamente deitado e ingeria somente líquido, seja leite materno ou fórmula. Agora experimentará – sentado – diferentes sabores, texturas e cheiros. É toda uma aprendizagem que leva tempo. Por isso, tenha sempre muita paciência e preste atenção aos sinais que o seu bebê emite. Confira a seguir as orientações da nutricionista Rachel Francischi, que integra as equipes da Casa Curumim e da Casa Moara.

Como começar a introdução alimentar

“Até os seis meses, a recomendação é a amamentação exclusiva. O leite materno é o alimento mais completo que existe e, até o sexto mês do bebê, não é necessário nada além dele, nem água ou chás. Depois dos primeiros seis meses, outros alimentos são introduzidos pouco a pouco”, reforça Rachel. O indicado é começar por alimentos naturais, que tenham um sabor suave e sejam macios.

“No Brasil, aconselhamos iniciar por uma fruta, especialmente alguma que faça parte da dieta materna e que seja de época. O que a mãe come passa de alguma forma para o leite materno e, assim, o bebê provavelmente já está acostumado àquele alimento, seja pelo sabor, odor ou pelas proteínas contidas nele. Então, imaginamos que serão menores as chances de uma recusa ou uma reação alérgica”, explica.

A apresentação dos alimentos ao bebê deve refletir a cultura local e os costumes da família. No Brasil, a orientação é optar primeiro pelas frutas por estarmos em uma área tropical, em que há uma grande variedade de frutas em todas as regiões, durante todo o ano. Mas a recomendação muda de acordo com o país. “Muitos pediatras norte-americanos indicam começar por um legume, como cenoura ou abobrinha, sempre bem cozido para atenuar um pouco as fibras e facilitar a digestão. Na Europa, muitas vezes os primeiros alimentos são os cereais. O mesmo acontece na Ásia, onde frequentemente o arroz é o primeiro a ser consumido”, cita a nutricionista.

Uma novidade por vez

O ideal é oferecer um alimento novo a cada dia, para conseguir observar possíveis reações no bebê. Após a introdução, você pode combinar alguns sabores. Se uma fruta não foi bem aceita pelo seu filho, experimente misturá-la a outra em um primeiro momento. “Vamos supor que o bebê tem rejeitado o abacate, que não é tão doce. Você pode combiná-lo com um pouco de manga ou banana, que são frutas mais adocicadas e, aos poucos, vai tentando dar o abacate sozinho”, sugere Rachel.

De que forma oferecer os alimentos

Antes de qualquer coisa, é fundamental que o bebê já seja capaz de sustentar a posição sentado sozinho durante algum período, com a coluna o mais ereta possível. Os primeiros alimentos oferecidos precisam ter uma textura muito macia e pastosa. “No caso de frutas como banana, mamão e melão, por exemplo, que sejam bastante amassadas com um garfo. Ou raspadas com uma colher ou mesmo raladas, se escolher uma maçã ou pera”, diz Rachel. E ela complementa: “As carnes oferecidas precisam ser bem desfiadas, em partes pequenas, macias e suculentas. O arroz e o feijão, amassados. Este segundo, preferencialmente, amassado com o caldo e sem a casca, que tem uma digestão mais difícil e sua textura pode incomodar o bebê no princípio. Depois de três ou quatro vezes que o bebê tiver experimentado o feijão, tente incluir a casca.”

Não tenha pressa e lembre-se de que essa é uma fase de transição, que deve levar em torno de seis meses. Apenas quando completar cerca de um ano a criança será capaz de comer alimentos com texturas mais próximas das ingeridas por um adulto.

Há ainda a possibilidade de seguir pelo método BLW (Baby Led Weaning), que valoriza as iniciativas espontâneas dos bebês de se alimentarem sozinhos e indica a apresentação da comida em pedaços. Se essa for a sua escolha, tenha em mente que, aos seis meses, seu filho ainda não desenvolveu a coordenação motora fina para fazer o movimento de pinça e pegar objetos pequenos com as mãos. Esse é inclusive um mecanismo de proteção para evitar que os pequenos engasguem. Portanto, não adianta picar demais uma fruta ou um legume e colocá-lo na frente do bebê. E nada de grãos em um primeiro momento. Dê frutas ou legumes cortados em forma de palito, o que facilita o agarre. “Procure oferecer banana ou mamão, que ficam bem macios em contato com a saliva, ou legumes e verduras bem cozidos no vapor, como abobrinha ou brócolis”, aconselha a especialista.

O melhor momento do dia para as primeiras refeições

Cada família deve estabelecer o horário das refeições do filho de acordo com a sua rotina e os costumes do bebê (que horas ele dorme, acorda, faz as sonecas etc.). “Normalmente a fruta, que é a primeira refeição, é dada no lanche da manhã ou da tarde. Mas também pode ser em outro horário. Deve ser um momento em que o bebê está disposto e bem-humorado. O ideal é que ele não esteja sonolento, cansado demais nem faminto. Se estiver com muita fome, o mais comum é que queira aquilo que já está habituado – leite materno ou fórmula. Mas também não pode estar totalmente saciado a ponto de não ter interesse em levar o alimento à boca”, recomenda Rachel.

De acordo com a nutricionista, nessa introdução, a alimentação complementar pode ser oferecida antes da mamada, depois dela ou até mesmo durante. “Se o bebê começa a chorar ao experimentar algo, você pode amamentá-lo um pouco para que se acalme e depois voltar a dar o alimento. O leite materno não interage com os nutrientes dos alimentos. A fórmula infantil sim. O leite artificial deve ser oferecido preferencialmente duas horas após o almoço ou o jantar para não interferir na absorção dos nutrientes, especialmente do ferro.”

Progressos

Depois de mais ou menos uma semana ou dez dias da primeira refeição introduzida na vida do bebê, inclua uma segunda refeição no dia, que pode ser uma segunda fruta em outro horário ou o almoço ou um jantar. Claro que não será um almoço completo, com todos os grupos alimentares e, sim, um alimento novo de cada vez.

Por volta dos sete meses completos, a ideia é que o bebê realize quatro refeições por dia com alimentos complementares: lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Além disso, mantém-se o leite materno sob livre demanda. O recomendado é que, dos seis meses até o primeiro ano do bebê, ele deve fazer quatro refeições por dia. Depois de completar um ano, acrescenta-se o café da manhã.

Fique atento aos sinais do seu bebê

Tenha muita paciência, carinho e amor. Observe o comportamento do seu bebê diante dos alimentos e controle a expectativa que ele coma logo nas primeiras vezes e em grandes quantidades.

“Estudos encontraram alguns tipos de comportamentos alimentares que se repetem nos bebês e logo nas primeiras vezes que se apresenta a comida já é possível notar as diferentes reações. Existem aqueles gulosos e ansiosos, que batem as mãos e mal têm paciência de esperar a próxima colherada, então é fácil de alimentá-los. Há os chamados procrastinadores, que não se interessam pela alimentação, adiam o momento da refeição, toleram bem a fome e qualquer outra atividade lhes parece mais interessante do que comer. Tem os muito agitados, que precisam ser acalmados antes que se ofereça o alimento e qualquer mudança na rotina significa um todo um processo de aprendizagem. E encontramos ainda bebês muito tranquilos, que se adaptam com facilidade a novas fases e não dão muito trabalho”, relata Rachel.

O importante é manter uma oferta de alimentos variados e saudáveis e monitorar o crescimento, junto ao pediatra ou nutricionista que acompanha o seu filho. Torne o momento da refeição o mais lúdico e interessante possível, sem ansiedades. Assim, a aceitação poderá acontecer de forma espontânea e o bebê conseguirá desenvolver uma boa relação com a comida, sem pressão. Independentemente do método, jamais force ou obrigue o seu filho a comer.

Não se abale diante de recusas, é uma fase de adaptação

As preferências e recusas estão relacionadas em geral a três questões: comportamento alimentar da criança, hábitos familiares e predisposição individual (geneticamente, o bebê é mais ou menos suscetível a algum gosto). Além disso, o paladar muda ao longo da vida, amadurece e passa por fases distintas. Você não deve insistir para que ele coma de maneira forçada. Porém, nunca deixe de apresentar um alimento várias vezes, em diferentes horários, formas variadas de textura ou mesmo volte a oferecê-lo passado algum período de tempo.

Durante os primeiros dois anos de vida, quanto mais vasto for o repertório que a criança conheceu, maiores são as chances de que ela consumirá um leque amplo de alimentos ao longo da vida e seja menos resistente quando estiver diante de algo novo. Também não se preocupe demais em relação às quantidades. Não existe um volume preestabelecido do que os bebês devem ingerir. Respeite os sinais de fome e saciedade do seu filho e responda atentamente a esses indícios.

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